Não se pode negar a influência oculta, mágica e satânica nas correntes mais representativas da arte moderna como o surrealismo. O surrealismo, segundo Hans Sedmayr, (1) nada mais é do que o realismo subterrâneo ou o porão demoníaco da arte. Acredito que o mesmo pode ser dito da arte abstrata.

Aquarela de Kandinsky de 1911, a primeira obra de arte abstrata conhecida |
A primeira obra de arte abstrata conhecida foi uma aquarela do pintor e teórico russo Wassily Kandinsky, de 1911. Um ano depois, o mesmo artista escreveu o livro "Sobre o espiritual na arte," que forneceu a primeira base teórica para a arte abstrata.
Nele, reconhece abertamente que suas teorias artísticas se baseiam nos ensinamentos ocultos de Helena Blavatsky, fundadora da teosofia (2) e autora de "A doutrina secreta." “Eu tirei tudo da doutrina secreta [de Blavatsky], que ele escreveu em 1918. (3) A obra de Blavatsky é tão fundamental para a magia moderna que 1888, a data de sua publicação, é considerado um ano marcante nos círculos teosofistas.
Embora russo de nascimento, Kandinsky pertencia ao movimento expressionista alemão conhecido como Die Brücke [A Ponte], fundado em 1905. Seus membros incluíam Emil Nolde, Max Pechstein, Ernst Ludwig Kirchner e Karl Schmidt-Rottluff. Rejeitando suas origens “burguesas,” eles adotaram um estilo de vida boêmio com amor livre e nudez frequente em sua arte. Este grupo também foi fortemente influenciado pela magia mediante as teorias ocultas de Blavatsky, Anne Besant e Charles Webster Leadbeater.

As cores, formas e linhas de Mondrian têm um simbolismo oculto; acima, uma pintura de 1930 |
Outro precursor da arte abstrata é o pintor holandês Piet Mondrian, conhecido por seu trabalho na forma chamada neoplasticismo. Ele também era um teosofista e um amigo próximo do filósofo e místico Schoenmaekers, autor de muitas obras sobre "misticismo racionalista", incluindo A nova imagem do Mundo, que propõe todo um sistema de simbolismo universal que tenta explicar o significado de cores, formas e linhas.
"Sou sempre impelido ao espiritual," afirmou Mondrian. "Por meio da teosofia, tomei consciência de que a arte poderia fornecer uma transição para as regiões mais sutis, que chamarei de reino espiritual." (4)
Na antiguidade, Hermes Trismegisto (Hermes três vezes grande) já havia tentado explicar que o reino espiritual “O que está abaixo é equivalente ao que está acima, e o que está acima é equivalente ao que está abaixo.” (5) Goethe corrobora o mesmo pensamento mágico oculto em outras palavras: "*Nada está dentro, nada está fora. Pois o dentro é o fora." Ao afirmar isso, Goethe não fez nada além de repetir um princípio da Cabala. Por essa razão, há uma curiosa semelhança entre esses tratados sobre a teoria da forma e aqueles das chamadas ciências ocultas.
A teosofia tem sua própria maneira de explicar os processos psíquicos. Por um lado, um um livro intitulado Formas de Pensamento de Anne Besant e C. W. Leadbeater, afirma que há uma continuidade gradual e sutil em todos os planos do universo, do espiritual ao mecânico; em seguida, apresenta fileiras de quadrados coloridos que supostamente representam as formas de pensamento. É um acréscimo às teorias teosofistas sobre o simbolismo das cores.
Por outro lado, no Traité Élementaire de Science Occulte, Gerard Encausse (um espiritualista francês e "bispo" da Igreja Gnóstica conhecido por seus livros sobre magia, a Cabala e o Tarô) faz muitas analogias entre formas gráficas e elementos psíquicos. (6)
Pintura em estado de transe
É um fato histórico que, desde meados do século XIX, os movimentos de arte moderna foram influenciados por uma onda de misticismo e filosofia asiáticos. O expressionismo alemão, berço da arte abstrata, também estava profundamente imerso na teosofia e no panteísmo oriental. O que a arte moderna perdeu ao rejeitar o cristianismo foi substituído pelo taoísmo, bramanismo, magia, astrologia e o falso misticismo e filosofia asiáticos. A arte não pode viver sem religião.
Kandinsky, juntamente com muitos outros expressionistas da época, considerava a arte como um meio de exercer a "força divina." "A arte é uma força e uma obra de arte brota da alma do artista de uma forma misteriosa e secreta," afirmou Kandinsky.
Segundo o testemunho de Herbert Read, Picasso pintava em estado de transe. O mesmo acontecia com Kandinsky e Fernando Pessoa. Era uma prática comum entre os artistas modernos. "Um grande quadrado sem ângulos nem lados" é uma aspiração suprema no caminho rumo ao infinito, segundo o pensamento de Laotsé, um filósofo místico da China antiga, considerado divino pelos iniciados nos "segredos" da arte abstrata.

Há semelhanças entre a pintura de Kandinsky, acima, e a Forma do Pensamento de Besant, abaixo
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Parece-me que esta definição de infinito é tão obtusa quanto a definição de "nada" dada por um filósofo urbano: "Nada" é uma faca sem lâmina e sem cabo. Essa sensação de ser colocado diante de algo irracional e obtuso é o que o homem normal sente quando é colocado diante de uma obra de arte moderna.
Para entender as origens mais profundas da pintura abstrata, precisamos vinculá-la ao ocultismo e à magia. Quando as pessoas veem essas exibições caóticas de formas e cores, elas não têm noção da ciência oculta que inspira essas obras.
Como um fervoroso seguidor de Madame Blavatsky, Kandinsky provavelmente também seguiu as experiências teosóficas de Anne Besant e Leadbeater, conforme reveladas em seus livros Formas de Pensamento e Homem, Visível e Invisível.
Comparando as ilustrações dessas duas obras, publicadas em 1903 e 1905, com as obras de arte abstrata de Kandinsky que ele começou a pintar em 1911, encontramos semelhanças marcantes. De fato, os paralelos são tão óbvios que um observador é forçado a concluir que a arte de Kandinsky se baseia mais nas teorias da teosofia do que em ser executada em estado de transe ou ter alguma origem secreta e misteriosa. (7)
Essa conclusão é reforçada quando comparamos o que Kandinsky chama de “a linguagem das formas e cores” com a teoria de C. W. Leadbeater sobre as cores astrais. Ele propôs que todo homem tinha uma aura que residia no plano astral e que cada cor e tonalidade astral tinha um significado oculto diferente. (8)
Então começamos a perceber que a arte abstrata não começou nem com Kandinsky, considerado sua figura principal, nem com o movimento expressionista alemão, nem com Mondrian, nem com o grupo Bauhaus de arquitetura moderna. Em vez disso, parece ser um subproduto das manifestações astrais reveladas pela teosofia.
1. Art du Démoniaque et Démonie de l’Art, Archivio de Filosofia - Organo dell’Istututo di Studi Filosofici.
2. A Teosofia, literalmente “sabedoria divina,” tenta sintetizar o conhecimento das leis que governam o universo numa visão de mundo unificada por meio da ciência “oculta” ou do ocultismo.
3. Carel Botkamp, Mondrian: The Art of Destruction, (Londres: Reaktion Books, 2001) 2ª ed., p. 111
4. Juan Eduardo Cirlot, La Pintura Abstracta, p. 60
5. Apud J. Gaspar Simoes, Vida e Obra de Fernando Pessoa, p. 39.
6. Juan Eduardo Cirlot, La Pintura Abstracta, p. 60
7. T.H. Robsjonhson-Gibbings, Mona Lisa’s Mustache, p. 151.
8. Charles Leadbeater, O Homem Visível e Invisível, parágrafo 131 online
“Dada a atualidade do tema deste artigo (4 de julho de 2011), TIA do Brasil resolveu republicá-lo - mesmo se alguns dados são antigos - para benefício de nossos leitores.”
Publicado em Catolicismo n. 35, novembro de 1953 Traduzido e adaptado pela secretaria da TIA Postado em 13 de julho de 2026

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